“ Com uma das mãos segurava a ponta da cortina, com a outra alisava-me a face. Não havia neste gesto nenhuma sensualidade, mas a minúcia, o carinho de um artista pela sua obra. Deste modo acariciou-me as pálpebras, a curva do queixo, o pescoço — e devagar sua mão desceu até a curva do meu colo.
— É bela, é bela ainda, é muito bela — disse, com a satisfação e a gravidade de um cego que já não teme nenhuma traição da realidade.
Diante de mim eu via apenas aquele rosto tumefato, que deveria ser sem expressão, e que apesar de tudo, àquela hora, iluminava-se à luz de um fogo concentrado. Abandonou-me com um suspiro, deixando ao mesmo tempo tombar a cortina:
— Assim você deve se conservar, Nina, para desespero dos homens. Ah, o que eles devem amargar com a sua beleza!
Na obscuridade, uma última vez, passou docemente a mão sobre meus olhos:
— Mas vamos, enxugue estas lágrimas; que lhe adiantam elas? As lágrimas não têm grande cotação nesse mundo; e depois, uma pessoa de sua força não deve chorar nunca.
Dizendo isso, afastou-se. Vi seu vulto submergir na penumbra, enquanto uma vaga cheirando a jasmim flutuava em sua esteira. Continuei sentada e, inexplicavelmente, tive a impressão de que mergulhara numa escuridão maior do que aquela em que estivera antes.”
Continuação da carta de Nina ao Coronel;
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
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terça-feira, 3 de novembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Crônica da Casa Assassinada (VI)
“ 15 — Era evidente que eu não a esperava mais, julgando que ela tinha esquecido sua promessa. Esquecera, não havia dúvida possível, repetia eu comigo mesmo, uma, duas, inúmeras vezes, e aquilo, à força de ser repetido e mastigado como uma humilhação que não se deseja esquecer, tornava-me pálido de raiva. Ah, ela havia-me enganado, escarnecera da minha esperança, dos meus sentimentos, da minha amizade, de tudo enfim — e o mais doloroso é que não havia necessidade daquilo. (...) Agora era impossível não reconhecer que ela me tratava simplesmente como uma criança. Seu próprio movimento, que antes me parecera revelador de tão inequívoca simpatia, desnudava-se aos meus olhos como um gesto vulgar e sem intenção. (No entanto, era fácil constatar que ela transfigurava tudo, desde uma simples risada até ao olhar mais distante e fugidio....) Esse gesto, quantas vezes eu o revivera em pensamento, o coração batendo como o de um colegial! As horas deslizavam, eu permanecia sentado em minha cama, olhos abertos na obscuridade. (...) Que são os fatos de que nos lembramos, senão a consciência de uma fugitiva luz pairando oculta sobre a verdade das coisas?”
Diário de André (II);
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
Diário de André (II);
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Crônica da Casa Assassinada (V)
“ (...) Vivia bem até o momento em que compreendi que me achava sufocada, em trevas, e essas trevas, que não me pesavam antes, agora me causam uma insuportável sensação de envenenamento. Sem ar, é como se me debatesse dentro de um elemento viscoso e mole; no fundo do meu espírito, uma força tenta em vão romper a camada habitual, revelar-se, impor a sua potência que eu desconheço e não sei de onde vem. Repito, ignoro o que esteja se passando comigo — surda, causticada, vagueio entre as pessoas sem coragem para expor o que se passa no meu íntimo, mas suficientemente lúcida para ter certeza de que um monstro existe dentro de mim, um ser fremente, apressado, que acabará por me engolir um dia. Ah, que voz é esta que rompe meus lábios, que é isto que me faz andar de cabeça erguida, que me atira para a frente, como um ser ferido pelo aguilhão? (...) Várias vezes o vi seguir-me com expressão inquieta, e talvez devesse me ter detido, procurando expor o transe em que me debato. Mas Padre, a danação é um fogo que arde solitário; às vezes ardemos um, ardemos dois, ardemos toda uma comunidade, mas isolados em nossa chama particular, donos únicos daquilo a que poderíamos chamar o nosso malefício e o nosso ultraje. (...) Sei que iniciei esta confissão como uma carta destinada a sobreviver à minha morte; creio no entanto que este é o último, o mais desesperado dos esforços para reencontrar a mim mesma, e ser, apagada e fria, não feliz como poderia desejar, mas indiferente, como sempre o fui. (...) A Esperança é a mais vital das virtudes teologais: sem ela tudo se cresta, e não há que exista sem o seu apoio, nem caridade que nos aqueça o coração sem sua constante assistência.”
Segunda confissão de Ana;
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
Segunda confissão de Ana;
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Crônica da Casa Assassinada (IV)
“ — Venha cá, Betty. Você se lembra de Padre Justino? Quando minha mãe era viva, ele vinha à Chácara com freqüência.
— Lembro-me perfeitamente, Sr. Timóteo — e admirei-me que tivesse mudado tão bruscamente de tom, e que, deixando o ar frívolo e zombeteiro, voltasse a adquirir o aspecto grave e reservado que eu habitualmente lhe conhecia.
— Padre Justino — continuou ele — costumava às vezes dizer umas verdades. Nada de muito sério, que padre da roça não sabe coisa alguma. Assim mesmo, um dia...
Hesitou um minuto, como se procurasse no pensamento a expressão exata, e concluiu:
— Um dia, no jardim, disse-me que o pecado é quase sempre uma coisa ínfima, um grão de areia, um nada - mas que pode destruir a alma inteira. Ah, Betty, a alma é uma coisa forte, uma força que não se vê, indestrutível. Se uma minúscula parcela de pecado - um nada, um sonho, um desejo mau - pode destruí-la, que não fará uma dose maciça de veneno, uma culpa instilada gota a gota no coração que se quer destruir?”
Diário de Betty (II);
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
— Lembro-me perfeitamente, Sr. Timóteo — e admirei-me que tivesse mudado tão bruscamente de tom, e que, deixando o ar frívolo e zombeteiro, voltasse a adquirir o aspecto grave e reservado que eu habitualmente lhe conhecia.
— Padre Justino — continuou ele — costumava às vezes dizer umas verdades. Nada de muito sério, que padre da roça não sabe coisa alguma. Assim mesmo, um dia...
Hesitou um minuto, como se procurasse no pensamento a expressão exata, e concluiu:
— Um dia, no jardim, disse-me que o pecado é quase sempre uma coisa ínfima, um grão de areia, um nada - mas que pode destruir a alma inteira. Ah, Betty, a alma é uma coisa forte, uma força que não se vê, indestrutível. Se uma minúscula parcela de pecado - um nada, um sonho, um desejo mau - pode destruí-la, que não fará uma dose maciça de veneno, uma culpa instilada gota a gota no coração que se quer destruir?”
Diário de Betty (II);
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
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domingo, 30 de agosto de 2009
Crônica da Casa Assassinada (III)
“ — Então? A verdade não se inventa, nem se serve de maneira diferente, nem pode ser substituída - é a verdade. Pode ser grotesca, absurda, mortal, mas é a verdade. Talvez você não entenda, Betty, e no entanto aí é que se encontra o ponto central de todas as coisas.
Calou-se mais uma vez, enquanto ofegava junto de mim. Em seguida, como se reavivasse recordações antigas, fatos possivelmente dolorosos, prosseguiu numa tonalidade em que era fácil adivinhar uma insinuante nostalgia:
— Como um homem - ou melhor, uma sombra de homem - nada me despertava paixão. Era como se eu não existisse. Que é este mundo sem paixão, Betty? É preciso nos concentrarmos, é preciso retirar de tudo sua dose máxima de interesse e de veemência. E se nada me habita, se sou apenas um fantasma dos outros...
Não, não havia dúvida de que eu já não acompanhava seu raciocínio, um tanto atordoada com aquelas expressões vagas. Via apenas o cintilar das lantejoulas, acompanhando o ritmo da emoção que lhe alteava o peito. E ele devia ter percebido minha distração, pois colocou uma das mãos sobre meu ombro:
— Enquanto que agora — e sua voz se iluminou — meu espírito livre se apodera das coisas. Amo e padeço como qualquer um, odeio, divirto-me, e, boa ou má, sou uma verdade estabelecida entre os outros, e não uma fantasia. Você me compreende agora, Betty, você me compreende? (...) Não, não compreende. Aliás, ninguém compreende. A verdade é uma ciência solitária.”
Diário de Betty (I);
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
Calou-se mais uma vez, enquanto ofegava junto de mim. Em seguida, como se reavivasse recordações antigas, fatos possivelmente dolorosos, prosseguiu numa tonalidade em que era fácil adivinhar uma insinuante nostalgia:
— Como um homem - ou melhor, uma sombra de homem - nada me despertava paixão. Era como se eu não existisse. Que é este mundo sem paixão, Betty? É preciso nos concentrarmos, é preciso retirar de tudo sua dose máxima de interesse e de veemência. E se nada me habita, se sou apenas um fantasma dos outros...
Não, não havia dúvida de que eu já não acompanhava seu raciocínio, um tanto atordoada com aquelas expressões vagas. Via apenas o cintilar das lantejoulas, acompanhando o ritmo da emoção que lhe alteava o peito. E ele devia ter percebido minha distração, pois colocou uma das mãos sobre meu ombro:
— Enquanto que agora — e sua voz se iluminou — meu espírito livre se apodera das coisas. Amo e padeço como qualquer um, odeio, divirto-me, e, boa ou má, sou uma verdade estabelecida entre os outros, e não uma fantasia. Você me compreende agora, Betty, você me compreende? (...) Não, não compreende. Aliás, ninguém compreende. A verdade é uma ciência solitária.”
Diário de Betty (I);
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso.
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
Crônica da Casa Assassinada (II)
"(...) Apesar de tudo, é necessário que alguém, ainda que este alguém seja eu, ponha-o em guarda contra sua própria credulidade. Morremos quase sempre da crueldade ignorada dos seres que nos cercam. Ah, se eu conseguisse trazer à sua memória a lembrança de alguns fatos... de algumas situações antigas... os primeiros tempos... a vida no Pavilhão. Aquele dia, Valdo, na escada cheia de folhas mortas, quando você me abraçou, dizendo: "Nunca, Nina, nunca nos separaremos neste mundo!" E nos separamos, cada dia que se passa achamo-nos mais distantes um do outro. Naquele momento, porém, parecia ser verdade, o ar estava impregnado de jasmim, e todo o mundo vegetal que nos cercava como que aludia à nossa causa, e jurava pela sua viva permanência. Mas que sortilégio pôde ter surgido, como tudo se transformou assim de repente? Que me aconteceu, que aconteceu ao nosso amor? Então não há nada certo, geramos apenas o esquecimento e a distância? As palavras, meu Deus, não significam coisa alguma, não têm poder para selar nenhum juramento? Quem somos nós que assim passamos como espuma, e nada deixamos do que construímos, senão um punhado de cinza e de sombra? Debato-me, o coração me vem aos lábios: que é válido, que é invulnerável à fúria do tempo, qual o sentimento que não se esgota e não se ultraja?
Repiso em vão essas teclas todas. Sinto-o mudo, difícil, o olhar desviado para longe. O longe é a imagem do nosso cansaço. Ali, onde nunca entrará nenhum vislumbre da minha pessoa, nem a projeção de um gesto meu, nem o eco de nenhuma das minhas palavras, ali você se refugiará com a sua certeza, e cavará minha sepultura com mãos desfiguradas e sem alma. Estou definitivamente morta para você, uma lápide imensa, sem forma, nos afasta para sempre um do outro. Ah, e isto é o que me abala e me consome. Imaginá-lo assim distanciado, sem um olhar de piedade para aquilo que nos constituiu. Imaginá-lo no seu silêncio, completamente esquecido do que me jurou e prometeu, e me sentir como se eu fosse apenas um nome, soprado há muito na vastidão de um jardim que não existe mais. Um nome, como uma pétala que cai (...)."
Primeira carta de Nina a Valdo Meneses;
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso
Repiso em vão essas teclas todas. Sinto-o mudo, difícil, o olhar desviado para longe. O longe é a imagem do nosso cansaço. Ali, onde nunca entrará nenhum vislumbre da minha pessoa, nem a projeção de um gesto meu, nem o eco de nenhuma das minhas palavras, ali você se refugiará com a sua certeza, e cavará minha sepultura com mãos desfiguradas e sem alma. Estou definitivamente morta para você, uma lápide imensa, sem forma, nos afasta para sempre um do outro. Ah, e isto é o que me abala e me consome. Imaginá-lo assim distanciado, sem um olhar de piedade para aquilo que nos constituiu. Imaginá-lo no seu silêncio, completamente esquecido do que me jurou e prometeu, e me sentir como se eu fosse apenas um nome, soprado há muito na vastidão de um jardim que não existe mais. Um nome, como uma pétala que cai (...)."
Primeira carta de Nina a Valdo Meneses;
Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso
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sexta-feira, 17 de julho de 2009
Crônica da Casa Assassinada
"(...) Bem se via que a morte não era uma brincadeira, que o ser estabelecido originalmente, e toscamente modelado em barro pelas mãos de Deus, ali irrompia de todos os disfarces, para se instalar onipotente em sua essência mais verídica. Bem se via também que tudo se achava definitivamente dito entre nós. Inúteis as palavras que haviam sobrado, os afagos que não haviam sido feitos, as flores com que ainda pudéssemos adorná-la. Libertada, repousava em sua pureza final. Ah, e inútil também tudo o que não fosse fúria e submissão. Sem resposta, como se nós, criaturas, nada mais merecêssemos senão o luto e a injustiça, tudo terminava ali. E o que existira não passara de um sonho, de uma magnífica e passageira ilusão dos meus sentidos. Nada conseguiria mais romper o duro peso que se acumulava sobre meu coração, e diante daquela ruína, já tocada pela corrupção, eu custava a reconhecer aquela que fora o objeto do meu amor, e nenhuma lágrima, nem mesmo de piedade, subia-me aos olhos.
Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher - como já o fizera tantas e tantas vezes - mas sentindo que desta vez era inútil, e que eu já não a conhecia mais."
Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher - como já o fizera tantas e tantas vezes - mas sentindo que desta vez era inútil, e que eu já não a conhecia mais."
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